Um Grand Cru vale mais, em preço e prazer oferecido, que um best seller?

vinho.jpg Por Luana Schreiner

Não bebo álcool. Digo isso. Mas diante de um vinho integral, de uma safra especialmente privilegiada por mais de 10 fatores em benefício da sorte. Então eu bebo 02 taças em comemoração e gratidão à natureza e ao vinhateiro amoroso, vinífero de alma.

De duas em duas taças, observei muitos vinhos nos últimos 10 anos. E li muito mais que bebi. Realmente tenho sede de literatura enóloga. Ler e viajar mundo afora. Anotei e agora compartilho as anotações da caderneta.

Fatores que determinam o sabor de um vinho:

o clone é a vida, se as videiras tem 5 ou 50 anos de idade; em que espécie de solo se desenvolveram; a inclinação e a direção em que o vinhedo se situa; como as videiras são podadas; se são pulverizadas com produtos químicos; quais são as condições atmosféricas; quando as uvas são colhidas; o tipo de prensa usada; se a fermentação ocorre com leveduras naturais ou comerciais e a que temperatura; se o vinho é bombeado ou flui em função da gravidade; se o vinho é envelhecido em carvalho e que espécie e por quanto tempo; se é filtrado antes de engarrafado - todos fatores contribuem para impressão no copo. E também, quanto mais pressa, mais uva e mais vinho, pior é a qualidade.

Fórmula da americanização no vinhedo:

reduzir a quantidade de folhas de parra (effeuillage) para que mais sol incida nas uvas; reduzir a produção mediante “colheita verde”, ou corte de cachos quando as uvas ainda estão verdes para que a produção seja menor e todo sabor se concentre nas uvas remanescentes; vindimar o mais tarde possível, deixar as uvas pendentes até que estejam supermaduras, garantindo álcool e corpo substanciais e taninos doces; a cor vem do contato com a casca da uva, deixando que o frio macere pelo maior tempo possível; “amaciar” o vinho no início de sua vida com fermentação MALOLÁTICA na barrica, depois fazer o menos possível, nada de transfegar, afinar ou filtrar antes do engarrafamento. Mantê-lo natural.

Um artigo no Wine Business Monthly advertiu que, no intuito de fazer vinhos “troféus”, vitoriosos em degustações às cegas, os enólogos criaram um novo estilo de vinho de elevado teor de álcool, os “vinhos sociais”, cansativos para beber e que não complementam a comida. O ideal para acompanhar a comida é de no máximo 12,5% de nível médio de álcool.

Dê uma olhada no site do Robert Parker, {The Wine Advocate}, o crítico americano considerado o possuidor de um dos melhores e mais rápidos olfatos do mundo. E olhe os sites da concorrência, Wine Spectator, The International Wine Cellar, Harpers Wine, Spirit Weekly, Decanter, The Vine e Wine Business Monthly.

Mas, sabe, um crítico leva só 30 segundos para degustar alguma coisa. Acho que essa é a média do Parker. Trinta segundos! É ridículo, realmente. É assim que se produz o chamado gosto global. Mas tudo o que se pode fazer é trabalhar e produzir. O resto é … psicologia.” (Nicolo Incisa della Rochetta, da vinícula Sassicaia no Piemonte)

Técnicas de Violação de Vinhos:

não só para controle de danos na adega, mas também para afinar o produto final. Pode-se usar um “disque sabor” (framboesa para fruta tropical, apesar da framboeseira ser do hemisfério Norte), leveduras para fermentação, adicionar tanino, pigmentos, ácidos e chips (lascas) de carvalho (mais baratas que barricas novas de carvalho) e empregar tratamentos que eram muito mais chegados à ciência da era espacial do que ao velho e humilde vinhateiro. Veja o site da Enologix, empresa que criou um software de elaboração de vinhos na Califórnia, do coletor cerebral Leo McCloskey. Máquinas de reversão de osmose e outras concentrações podem remover o excesso de álcool resultantes das uvas supermaduras. A micro-oxigenação, na qual minúsculas bolhas de oxigênio são introduzidas na tina de um barril para substituir os sedimentos, pode fixar a cor e acelerar a evolução do vinho de modo que os críticos possam avaliar o vinho mais cedo.

Depois de tanta técnica, recomendo a sensibilidade. Leia “O Connaisseur Acidental” de Lawrence Osborne, tradução Adalgisa Campos da Silva, editora Intrínseca, 2004. Esse livro é demais de bom. É um Premier grand cru classé.

Lamento dizer que atualmente todos os perfumes têm o mesmo cheiro. Igual a Calvin Klein. São todos doces, florais ou cítricos. A fórmula mais inócua naturalmente sempre vai agradar ao maior número de pessoas”. (Osborne)

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O livro aborda os temas: A esquerda – O orgânico; Robert Mondavi; Elaboração tecnológica de vinhos; Escritores de vinhos; O futuro terroir da Califórnia; Metáforas duvidosa; Émile Peynaud; Solo de Languedoc; Relação importador – produtor; A pressa do mundo; O mel do Marrocos; Vinhos infantis – Vinhos modernos; História do surgimento do Barolo; História do surgimento do Sassicaia; Gambero Rosso – Guia; Livros, filmes, vários são sugeridos; a Decadência da Toscana; Mondo Antinori e sua terra Tignanello.

E o livro fala intimamente sobre as vinícola, seus vinhos e proprietários: V. Sterling; Tulocay; Chalone; Mount Eden; Ridge; Bonny Doon; Iris du Gayon; Saint-Jean de Bebian; Mas de Daumas Gassae; Mas de Cal Demoura; La Geynale; Châteauneuf-du-Pape; Dolcetta d’Alba; Azienda Fratelli Brovia; Cámia; Carema; Podere Pruneto; Podere Terreno; Castello di Volpaia; Coltibuona; Falesco; La Palazzola.

” Tignanello é, na verdade, uma cidade-fantasma. Foi abandonada por seus camponeses e depois convertida pela empresa Antinori numa espécie de spa turístico rural orientado para o vinho. É um fenômeno comum atualmente. Veja Napa na Califórnia….” (Osborne)

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30 anos sem Nabokov? Não, Nabokov é eterno

machenka.jpg “Imagine só, há uma semana só vejo neve, tudo aqui é branco é frio. O clima é gélido, desagradável e deprimente. E de repente como um passarinho vem à minha cabeça o pensamento de que em algum lugar muito muito distante há pessoas que levam uma vida completamente diferente. Que não estão estagnando como eu nesta fazendola perdida no meio do mato. Não, aqui é realmente chato demais. Me escreve alguma coisa. Qualquer besteirinha.”

Quem diz é Machenka, personagem oculta, adorada e odiada por Ganin, assim como é a Rússia para ele. A pátria sem força política, que não luta pela democracia. De um povo constituído por uma ralé indistinta. Rússia amaldiçoada mas também guardiã das melhores descrições de felicidade no livro Machenka” de 1926, o primeiro romance de Vladimir Nabokov, o russo nascido em São Petersburgo em 1899. Também autor de inúmeros livros, “Lolita” 1956, talvez o mais afamado. Vladimir Nabokov morou em Cambridge, Berlim, Paris, emigrou para os Estados Unidos e morreu em 1977 em Montreux, Suiça.

Em “Machenka” Nabokov expõe toda sua espontaneidade e ímpeto na força súbita e entusiasmada dos 27 anos. Onde já impressiona com o estilo próprio da criação de personagens independentes , fortes e nada convencionais. O livro chama atenção pela inteligência do autor. No prefácio, ele cria uma defesa de sua obra, em uma conversa aberta com escritores de críticas literárias. “Conquanto algum idiota possa afirmar que uma banana tem inegável forma fálica, aconselho os membros da delegação vienense a que não percam seu precioso tempo analisando o sonho de Klara no final do capítulo 4 deste livro.”

Como todas as pessoas que são muito diferentes e destoam da massa são geralmente odiadas ou excluídas. O autor continuou advogado de si mesmo na defesa do seu texto:

“Os professores de literatura têm o hábito de fazer perguntas do tipo: “Qual era o propósito do autor?”, ou ainda pior: “O que é que esse sujeito está tentando dizer?”. Ora, acontece que sou um desses autores que, ao iniciar um livro, não têm outro propósito senão o de livrar-se dele o mais rápido possível e que, ao serem chamados a explicar-lhe a origem e desenvolvimento, se vêem obrigados a recorrer a fórmulas cediças do gênero ‘interação entre a inspiração e a combinação’ – o que admito, é o mesmo que um mágico explicar um truque executando outro”. Falou o professor Nabokov no posfácio em defesa da obra Lolita 1956.

O melhor da literatura de Nabokov é o seu estilo, as aventuras não são o mais impressionante. Assim como há livros que nos ensinam muito, transmitem uma mensagem e imprimem uma experiência. Há livros que simplesmente nos mostram o quanto as idéias podem ser muito bem organizadas, e como é mágica a talentosa dinâmica de usar as palavras para descrever os sujeitos, contar uma estória. É assim em “Machenka“. Muito estiloso, desde já, genial.

Por Luana Schreiner

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foto que ilustra a capa do livro Collected Stories da editora Penguin Modern Classic