Realismo

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Há uns dezoito anos atrás (segundo fonte), quando era comum ler por aí as dissertações sobre o irreversível declínio americano, Joseph Nye predizia que a América permaneceria em posição hegemônica, pois ela mantinha, apesar de seus problemas econômicos, seu poder de influência através da cultura, da tecnologia, etc. Contra a corrente, Joseph Nye prega, em plena euforia uniterialista, a negociação e o multilateralismo.

A doutrina do governo Bush está efetivamente, fundada no princípio da “auto defesa preventiva decidida unilateralmente”. Os falcões têm uma visão marcial da ordem mundial. Eles se consideram da tradição “realista”, para quem os recursos militares constituem o indicador essencial da potência, todo sabemos.

Nessa ótica, se uma “mudança de regime” no Iraque se impõe, não têm muita importância o fato que os países arábes e os europeus sejam opostos a ela. E quando se trata do protocolo de Kyoto, da Corte Penal Internacional ou da Convenção de Genebra, os EUA estão tão seguros de seu direito, por isso pouco se preocupam com o direito internacional.

Professor universitário de renome, Joseph Nye ocupou importantes funções nos terrenos da defesa e da política internacional lá no seu país. Sua crítica se situa no campo do pragmatismo e da defesa dos interesses americanos através de uma visão multilateral que leva em conta os interesses e as preocupações da “comunidade, que não influenciarão o seu crescimento econômico internacional”. Nem a potência militar dos Estados Unidos, nem seus profetas terão influência sobre o seu crescimento econômico, sobre a pobreza, o meio ambiente ou sobre os fluxos financeiros migratórios.

Através desta articulação me foi indicado The Paradox of American Power: Why the World’s Only Superpower Can’t Do It Alone, Oxford University Press, 2002 e o livro de Joseph Nye: The Changing Nature of American Power, Basic Books, Nova Iorque, 1990. Indico para quem neste momento quer encontrar mais razões para crise de recessão que enfrenta os EUA, para quem lê bem em inglês.

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Wolff celebra o povo e vocifera contra a lógica do lucro

bocas.jpg Para Schopenhauer, os grandes escritores sempre escrevem partindo das reminiscências, fazendo de si tema de sua literatura. Já para Joseph Brodsky, “a biografia de um escritor está nos meandros de seu estilo”. Essas afirmações permitem entender A Milésima Segunda Noite, de Fausto Wolff, livro monumental, que não pode ser classificado facilmente, embora seja lido com grande prazer do início ao fim. Não se lê apenas um livro, lê-se um homem fadado ao imenso e às marcas de um mundo de experiências e reflexões que ficaram impressas nele. É título obrigatório na estante de qualquer interessado em cultura e não apenas literatura.

Composto de fragmentos, narrativas, opiniões, acusações, crenças e descrenças, poemas, aforismos, contos, crônicas, artigos, avaliações críticas, A Milésima Segunda Noite é um grande painel sem linearidade, que transita entre o agora e as teorias do surgimento do planeta, num nítido anseio de criar passagens entre o Gênese e o Apocalipse, escrevendo epitáfios aos grandes homens e suas obras iluminadoras, execrando os canalhas, entronizando o povo e vociferando contra a lógica do lucro.

Na tentativa de aproximá-lo de um gênero, poderíamos dizer que é um diário, mas escrito com intenções romanescas, prendendo o leitor em uma trama implícita. No livro não há uma história central. Há um homem com milhares de histórias. O simples ato de contar é o elemento aglutinador.

O autor dá algumas definições da obra, como a seguinte: “Trata-se de uma espécie de Ilíada mundial vista sob a perspectiva de um jornalista carioca”, reivindicando o encontro do literário e do jornalístico. E esse é um dado importante. Fausto não quer um estilista, ausente do debate de seu tempo, mas um escritor afundado nos fatos, avesso ao beletrismo frio e defensor de uma arte com humanidade: “Escrever bem é importante, mas não é o essencial. O essencial é a sinceridade. Pelo menos tentar ser sincero de todo coração. Isso, por si só, já é um estilo”. Esse estilo-sinceridade da unidade ao livro, fazendo dele o extenso depoimento de um narrador para quem o mundo existe na medida em que pode ser contado, e atestando uma crença na permanente necessidade de se contar o mundo, não apenas para que o escritor não morra, mas para que o mundo possa continuar existindo.

O poder do surgimento das histórias determina a concepção de tempo para Fausto. O tempo é um eterno presente e todas as coisas acontecem ao mesmo tempo há bilhões de anos. Para ele, não há uma história do mundo, no sentido cronológico, e sim a ação de instantes dessa temporalidade plena e redundante sobre o homem. Numa época marcada pela imbecilidade em que só prosperam os diplomáticos, comprando apoio à esquerda e à direita, em que “a publicidade venceu a batalha contra o intelecto”, Fausto Wolff distingue-se pela coragem de dizer tudo o que pensa, exercendo um exacerbado espírito masculino. Para Walter Benjamin, o bom escritor não diz mais do que pensa. Por isso, o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer. Poucos escritores contemporâneos se enquadram melhor nesse preceito do que Wolff. Ele é um exercício de reflexão vital. Boa leitura!

fausto-wolff.jpgFoto de Cristina Carriconde

Leitura para quem gosta de: Cultural Studies, Estruturalismo, Frank Raymond Leavis, para quem leu Cultura e Anarquiade Matthew Arnold 1935, quem gosta de ler a revista Scrutiny. Leitura indicada para pessoas do sexo masculino, creio eu.

Luana Schreiner

O que é o que é?

O que é Yoga?

Existem muitos significados e definicões para a palavra Yoga.

A raíz vêm da palavra sânscrita yur, que significa “unir”, mas o significado do sistema nascido ha mais de 5.000 anos na India, e que comporta filosofia, ciencias e práticas físicas é bem mais amplo e profundo. Escolhi algumas definicões, das mais antigas, extraídas dos textos clássicos, as contemporâneas, adaptadas por mestres e estudioso da nossa época. Tudo da minha caderneta de anotacões imprescindíveis, é claro.

Muitas interpretações diferentes foram dadas para a palavra Yoga no decorrer dos séculos. Uma dessas definições é “juntar”, “unir”. Outro significado para a palavra Yoga é “amarrar as cordas da mente” (…) esse aspecto do Yoga tem a ver com nossas ações. Portanto, Yoga também significa agir de forma que toda nossa atenção esteja direcionada para a atividade em que estamos engajados no momento (…) O Yoga tenta criar um estado no qual estamos sempre presentes – realmente presentes- em toda ação, em todo momento.” T.K.V. Desikachar, The Heart of Yoga (p. 5 e 6).

“Ao Yoga se chama equilíbrio (samatva)” Bhagavad-Gita (2.48)

“Outro significado do Yoga é o de alcançar o que era antes inalcançavel” T.K.V. Desikachar, The Heart of Yoga (p. 5)

“Diz-se do Yoga que é a unificação da teia das dualidades”. Yoga-Bija (84)

“Yoga é ser um com o Divino” T.K.V. Desikachar, The Heart of Yoga (p. 7)

“Yoga é a habilidade nas ações” Bhagavad-Gita (2,50)

“Diz-se do Yoga que é a unidade da respiração, da mente e dos sentidos, e o abandono de todos os estados de existência” Maitri-Upanishad (6,25)

“O Yoga é conhecido como a dissociação da associação com o sofrimento” Bhagavad-Gita (6,23)

“O Yoga, segundo se diz, é o controle”  Brahmananda-Purana (2.3.10.115)

“Diz-se do Yoga que é a unidade de expiração e inspiração, de sangue e semen, bem como a união do Sol com a Lua, da alma vivente individual com o supremo Si Mesmo”. Yoga -Shikha- Upanishad (1.68-69)

“Isto chamam eles de Yoga: a firme contenção dos sentidos”  Katha-Upanishad (6.11)

“Yoga é um dos seis sistemas fundamentais do pensamento indiano coletivamente como darsana; os outros cinco darsanas são nyaya, vaisesika, samkhya, mimamsa e vedanta”.  T.K.V. Desikachar, The Heart of Yoga (p.5)

“Yoga é a disciplina unitiva pela qual se busca a liberdade eterna”.  George Feurstein, Uma Visão Profunda do Yoga (p.87)

Em Busca de Mim entre o Om e o Yoga

Fazem anos que me dedico a pensar sobre o Yoga e fazer crescer a vida permeada a textos e asanas. O amigo fiel leitor pode perguntar, “mas por que justamente o Yoga?” Por que uma disciplina tao exotica e distante em termos de tempo e espaco, de cultura e símbolos? Nao seria mais lógico optar pela antropologia, a psiquiatria ou a neurobiologia, ja que o objetivo é compreender o ser humano, ou a mim mesma? Então por que o Yoga?

Recomendo aqui um livro que sempre cito quando me fazem essa interrogacão. Com todo entusiasmo indico  Om, Meditacoes Criativas, Ed. Record Nova Era, do filósofo e escritor americano Alan Watts, que além de ter sido, creio eu,  um ícone da geracao hippie, foi professor de teologia na Harvard e um dos pensadores a iniciar o diálogo Oriente-Ocidente.

No livro esta escrito que “é necessário chegar ao Om”, foi essa frase que me marcou profundamente quando  o li, e mesmo sem saber explicar literalmente o que era o Om, intuitivamente achei que seria um  motivo nobre para dedicar minha vida. Levou-me um certo tempo encontrar a conexao entre o Om e o yoga, e sei que preciso de muitos anos de meditacao para compreender o significado profundo do Om. Nas escrituras, esse mantra sagrado é chamado Shabda Brahman, “Corpo Sonoro de Brahman”. Brahman é a Pura ConsciÊncia, presente em tudo e em todos, que se manifesta por meio das leis naturais, e que sustenta a criacao atraves do dharma: o principio da ordem universal.

A afirmacao “é preciso chegar no Om”, é a espinha dorsal do Yoga. Para o yogi, Om é o início, o meio e o fim no crescimento interior. Om e

é a liberdade, a plenitude e a felicidade que todos buscamos distraidamente do lado de fora, sem perceber que nos mesmos já somos isso. E necessário apenas descobrir essa liberdade em nós. A liberdade, chamada moskha em sânscrito, é o objetivo final de todas as formas do Yoga. O conhecimento é o veículo para acessarmos essa liberdade.

A Bússula sou Eu

Sabemos que o Yoga vive uma real popularidade e sem precedentes. Como explicar isso, sendo que existe ha milênios e nasceu na India? Considerando a regente crise de valores, esta pergunta se justifica plenamente.  Por que autoconhecimento logo agora que a humanidade parece ter mergulhado no elogio da auto-ignorancia? Enfrentamos guerras, violência, corrupcao, desastres ecológicos e éticos. Privilegia-se o ter em detrimento do ser, persegue-se o sucesso sacrificando a felicidade e aquilo que o filósofo grego Artistóteles chamou a “boa vida”. Nessa situacao, nao temos tempo para dedicar a nós mesmos; muito menos para aliviar a penúria dos irmãos. Que papel tem o Yoga nesse cenário? Dar uma visão construtiva, mais significativa e profunda sobre a existência humana. Com muita intensidade rumo a nossa consciência.

Há cientistas que afirmam que aquilo que chamamos de Atman, ou Ser, seria apenas uma serie de processos bioquimicos dentro do cérebro, e que tudo o que sentimos e pensamos seria somente uma tormenta de neurônios no sistema nervoso central. Esse tipo de explicacao sobre as grandes interrogantes da vida não satisfaz todos. Alguns intuem que deve haver alguma outra proposta de vida, mais simples, significativa e feliz. Podem ter se decepcionado com as explicacoes propostas por religiões, ciência ou humanismo laico. E assim se interessam pelo Yoga. Foi o caso do meu pai, por exemplo. Mais tarde, com minha mãe.

Essa gente sente atracão pela liberdade e o crescimento interior, baseados em práticas como compaixão, atentividade, vida de contemplacão, amor e capacidade de viver no agora, no presente. Creio assim.

Embora o Yoga tenha nascido na India, e crescido sob a égide da cultura védica, seu apelo é universal, tão atual agora como foi ha milênios.

Não obstante, esse enorme leque de possibilidades tem dado lugar ao surgimento de interpretacões superficiais, equivocadas e caricatas das práticas yogikas, desconectadas do propósito original.

O Yoga é como a mãe natureza, generosa e disposta  a nutrir quem precisar. Todavia, ele so nos dara seus frutos a medida em que nos entregarmos a ele. se buscarmos no Yoga apenas uma prática física, certamente conseguiremos estar em forma praticando. Mas estaremos perdendo a melhor parte: a autodescoberta, a liberdade e a plenitude. Se estivermos dispostos a realizar esses passos, chegaremos na meta. Portanto, lembre-se de Alan Watts: é preciso chegar no Om!

Namastê!