Fazem anos que me dedico a pensar sobre o Yoga e fazer crescer a vida permeada a textos e asanas. O amigo fiel leitor pode perguntar, “mas por que justamente o Yoga?” Por que uma disciplina tao exotica e distante em termos de tempo e espaco, de cultura e símbolos? Nao seria mais lógico optar pela antropologia, a psiquiatria ou a neurobiologia, ja que o objetivo é compreender o ser humano, ou a mim mesma? Então por que o Yoga?
Recomendo aqui um livro que sempre cito quando me fazem essa interrogacão. Com todo entusiasmo indico Om, Meditacoes Criativas, Ed. Record Nova Era, do filósofo e escritor americano Alan Watts, que além de ter sido, creio eu, um ícone da geracao hippie, foi professor de teologia na Harvard e um dos pensadores a iniciar o diálogo Oriente-Ocidente.
No livro esta escrito que “é necessário chegar ao Om”, foi essa frase que me marcou profundamente quando o li, e mesmo sem saber explicar literalmente o que era o Om, intuitivamente achei que seria um motivo nobre para dedicar minha vida. Levou-me um certo tempo encontrar a conexao entre o Om e o yoga, e sei que preciso de muitos anos de meditacao para compreender o significado profundo do Om. Nas escrituras, esse mantra sagrado é chamado Shabda Brahman, “Corpo Sonoro de Brahman”. Brahman é a Pura ConsciÊncia, presente em tudo e em todos, que se manifesta por meio das leis naturais, e que sustenta a criacao atraves do dharma: o principio da ordem universal.
A afirmacao “é preciso chegar no Om”, é a espinha dorsal do Yoga. Para o yogi, Om é o início, o meio e o fim no crescimento interior. Om e
é a liberdade, a plenitude e a felicidade que todos buscamos distraidamente do lado de fora, sem perceber que nos mesmos já somos isso. E necessário apenas descobrir essa liberdade em nós. A liberdade, chamada moskha em sânscrito, é o objetivo final de todas as formas do Yoga. O conhecimento é o veículo para acessarmos essa liberdade.
A Bússula sou Eu
Sabemos que o Yoga vive uma real popularidade e sem precedentes. Como explicar isso, sendo que existe ha milênios e nasceu na India? Considerando a regente crise de valores, esta pergunta se justifica plenamente. Por que autoconhecimento logo agora que a humanidade parece ter mergulhado no elogio da auto-ignorancia? Enfrentamos guerras, violência, corrupcao, desastres ecológicos e éticos. Privilegia-se o ter em detrimento do ser, persegue-se o sucesso sacrificando a felicidade e aquilo que o filósofo grego Artistóteles chamou a “boa vida”. Nessa situacao, nao temos tempo para dedicar a nós mesmos; muito menos para aliviar a penúria dos irmãos. Que papel tem o Yoga nesse cenário? Dar uma visão construtiva, mais significativa e profunda sobre a existência humana. Com muita intensidade rumo a nossa consciência.
Há cientistas que afirmam que aquilo que chamamos de Atman, ou Ser, seria apenas uma serie de processos bioquimicos dentro do cérebro, e que tudo o que sentimos e pensamos seria somente uma tormenta de neurônios no sistema nervoso central. Esse tipo de explicacao sobre as grandes interrogantes da vida não satisfaz todos. Alguns intuem que deve haver alguma outra proposta de vida, mais simples, significativa e feliz. Podem ter se decepcionado com as explicacoes propostas por religiões, ciência ou humanismo laico. E assim se interessam pelo Yoga. Foi o caso do meu pai, por exemplo. Mais tarde, com minha mãe.
Essa gente sente atracão pela liberdade e o crescimento interior, baseados em práticas como compaixão, atentividade, vida de contemplacão, amor e capacidade de viver no agora, no presente. Creio assim.
Embora o Yoga tenha nascido na India, e crescido sob a égide da cultura védica, seu apelo é universal, tão atual agora como foi ha milênios.
Não obstante, esse enorme leque de possibilidades tem dado lugar ao surgimento de interpretacões superficiais, equivocadas e caricatas das práticas yogikas, desconectadas do propósito original.
O Yoga é como a mãe natureza, generosa e disposta a nutrir quem precisar. Todavia, ele so nos dara seus frutos a medida em que nos entregarmos a ele. se buscarmos no Yoga apenas uma prática física, certamente conseguiremos estar em forma praticando. Mas estaremos perdendo a melhor parte: a autodescoberta, a liberdade e a plenitude. Se estivermos dispostos a realizar esses passos, chegaremos na meta. Portanto, lembre-se de Alan Watts: é preciso chegar no Om!
Namastê!