Wolff celebra o povo e vocifera contra a lógica do lucro

bocas.jpg Para Schopenhauer, os grandes escritores sempre escrevem partindo das reminiscências, fazendo de si tema de sua literatura. Já para Joseph Brodsky, “a biografia de um escritor está nos meandros de seu estilo”. Essas afirmações permitem entender A Milésima Segunda Noite, de Fausto Wolff, livro monumental, que não pode ser classificado facilmente, embora seja lido com grande prazer do início ao fim. Não se lê apenas um livro, lê-se um homem fadado ao imenso e às marcas de um mundo de experiências e reflexões que ficaram impressas nele. É título obrigatório na estante de qualquer interessado em cultura e não apenas literatura.

Composto de fragmentos, narrativas, opiniões, acusações, crenças e descrenças, poemas, aforismos, contos, crônicas, artigos, avaliações críticas, A Milésima Segunda Noite é um grande painel sem linearidade, que transita entre o agora e as teorias do surgimento do planeta, num nítido anseio de criar passagens entre o Gênese e o Apocalipse, escrevendo epitáfios aos grandes homens e suas obras iluminadoras, execrando os canalhas, entronizando o povo e vociferando contra a lógica do lucro.

Na tentativa de aproximá-lo de um gênero, poderíamos dizer que é um diário, mas escrito com intenções romanescas, prendendo o leitor em uma trama implícita. No livro não há uma história central. Há um homem com milhares de histórias. O simples ato de contar é o elemento aglutinador.

O autor dá algumas definições da obra, como a seguinte: “Trata-se de uma espécie de Ilíada mundial vista sob a perspectiva de um jornalista carioca”, reivindicando o encontro do literário e do jornalístico. E esse é um dado importante. Fausto não quer um estilista, ausente do debate de seu tempo, mas um escritor afundado nos fatos, avesso ao beletrismo frio e defensor de uma arte com humanidade: “Escrever bem é importante, mas não é o essencial. O essencial é a sinceridade. Pelo menos tentar ser sincero de todo coração. Isso, por si só, já é um estilo”. Esse estilo-sinceridade da unidade ao livro, fazendo dele o extenso depoimento de um narrador para quem o mundo existe na medida em que pode ser contado, e atestando uma crença na permanente necessidade de se contar o mundo, não apenas para que o escritor não morra, mas para que o mundo possa continuar existindo.

O poder do surgimento das histórias determina a concepção de tempo para Fausto. O tempo é um eterno presente e todas as coisas acontecem ao mesmo tempo há bilhões de anos. Para ele, não há uma história do mundo, no sentido cronológico, e sim a ação de instantes dessa temporalidade plena e redundante sobre o homem. Numa época marcada pela imbecilidade em que só prosperam os diplomáticos, comprando apoio à esquerda e à direita, em que “a publicidade venceu a batalha contra o intelecto”, Fausto Wolff distingue-se pela coragem de dizer tudo o que pensa, exercendo um exacerbado espírito masculino. Para Walter Benjamin, o bom escritor não diz mais do que pensa. Por isso, o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer. Poucos escritores contemporâneos se enquadram melhor nesse preceito do que Wolff. Ele é um exercício de reflexão vital. Boa leitura!

fausto-wolff.jpgFoto de Cristina Carriconde

Leitura para quem gosta de: Cultural Studies, Estruturalismo, Frank Raymond Leavis, para quem leu Cultura e Anarquiade Matthew Arnold 1935, quem gosta de ler a revista Scrutiny. Leitura indicada para pessoas do sexo masculino, creio eu.

Luana Schreiner

1 Comentário

  1. 6, Setembro 2008 às 5:19 pm

    Lastimo muito a morte do Fausto.
    Ele gostava muito dessa foto que foi feita por mim no lançamento do livro.


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