Os Guaranis em Viamão – Por Jorge Amaro de Souza Borges
A relação de um indígena da etnia Mbya Guarani, como os que vivem em Viamão, é diferente de um indígena de uma outra etnia, como os Kaingang, presentes em outras regiões do estado do Rio Grande do Sul. A questão da mobilidade entre os Guarani é fundamental para se compreender outros aspectos da sua cultura. Eles estão constantemente em trânsito, a convite de parentes, visitas a xamãs, casamentos, etc. Essa característica marcante dos Mbya não é considerada adequadamente na maioria dos processos de demarcação oficial e, portanto, artificial dos seus territórios. Segundo a antropóloga Maria Inês Ladeira: “[...] O território ou mundo Guarani Mbya, enquanto espaço cartográfico e geográfico, é fragmentado e compartilhado por diferentes sociedades e grupos sociais. Em contraposição, asaldeias ou tekoa – “lugar onde vivem segundo seus costumes e leis” – não podem abrigar outros grupos humanos. O espaço físico de um tekoa deve conter recursos naturais preservados e permitir a
privacidade da comunidade. Entretanto, a fragmentação atual das aldeias, definidas por limites artificiais em função do reconhecimento público e oficial de outras ocupações (tais como fazendas, loteamentos, estradas, projetos de abastecimento etc.), inviabiliza-as enquanto espaço que garanta a subsistência da própria comunidade. Apesar disso verifica-se, nas diversas aldeias, um modo peculiar de apreensão, construção e organização do espaço, desenvolvido através do exercício social, político, religioso e do manejo de espécies tradicionais.[...]“Em Viamão, são três áreas indígenas: a Reserva Indígena Canta Galo, com 128 pessoas divididas em 27 famílias e numa área de 48ha; a Reserva Indígena da Estiva com 79 pessoas e 17 famílias em 7ha e a Aldeia de Itapoã com 14 famílias e 22ha. Essas áreas são habitadas por indígenas da etnia Mbyá Guarani. É importante notar que a demarcação e regularização das terras indígenas, muitas vezes não dá conta das necessidades desses povos e
nem é garantia de sua preservação enquanto grupo e de seus costumes e tradições. Ainda mais quando faz parte da sua cosmologia (modo de viver) o constante deslocamento, característica também de diversas outras etnias. E esse quadro se complexifica ainda mais se nos basearmos inteiramente em nossa lógica cultural. Se 5ha são suficientes, por exemplo, para assentar uma família no meio rural, é bem possível que isso não seja para uma família indígena. E a terra tradicional indígena não é qualquer uma, mas aquela que abriga os restos dos seus antepassados, o rio onde é realizada a iniciação dos jovens, a floresta onde possui determinadas plantas utilizadas em seus rituais sagrados, enfim, aquela onde vivem e reproduzem historicamente o seu modo de vida. Portanto, o simples “assentamento” dessas comunidades em uma área qualquer, não garante a sobrevivência e preservação do grupo e suas tradições, sendo que uma gama de aspectos devem ser devidamente considerados de forma a não desestruturar o grupo.
Índios por Caminhos Solitários « Voluntário RS disse,
13, Junho 2008 às 11:01 am
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