O Barroco em Viamão é um mistério

Os habitantes primitivos da área de Viamão foram os índios mibyá-guaranis e kaingangs. A partir de 1732, o Rio Grande de São Pedro – como era conhecido o Rio Grande do Sul – passou a atrair colonizadores que se radicaram na região de Viamão. Elevada à categoria de freguesia em 1747, em 1763 acolheu a governança da província, que até então tinha sede na Vila do Rio Grande, e que foi transferida devido à invasão espanhola. Viamão se conservou sede do governo até 1773, quando este, por razões práticas, passou ao antigo Porto de Viamão, hoje Porto Alegre. E em 1880 desmembra-se de Porto Alegre para tornar-se vila e sede de um município independente.

Este templo dedicado a Nossa Senhora da Conceição, um dos mais significativos símbolos da identidade local, foi erguido por Francisco Carvalho da Cunha, que por volta de 1741 se estabelecera nos Campos de Viamão, no sítio chamado Estância Grande. O projeto foi do Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, o mesmo projetista das catedrais de Buenos Aires e Montevidéu, e sua construção iniciou em 1767, tendo sido celebrada a primeira missa pelo padre José Malta em 6 de abril de 1770.

É a segunda igreja mais antiga do Estado, atrás apenas da Catedral de São Pedro, em Rio Grande. Em julho de 1938 foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em seu entorno nada restou dos tempos coloniais, permanecendo a igreja como uma relíquia singular, ainda que esplêndida, da arquitetura setecentista no município.

A Matriz é de traço barroco colonial, com elementos rococós na decoração, e por suas paredes espessas e feição imponente assemelha-se a uma fortaleza, reflexo do período de disputas de fronteira entre os territórios português e espanhol na América do Sul.

Localizada na larga praça central da cidade, sua entrada se dá através de um grande adro com pequena escadaria e balaustrada. O frontispício, em pedra, é discreto, mas a porta única, central, mostra bela talha rococó, já um tanto desgastada pelas intempéries. Aos lados, duas colunas toscanas ornamentais que nada sustentam terminam no segundo nível, onde se abrem duas janelas de arco abatido fechadas por vitrais, e tendo ao centro um óculo quadrifólio com pontas entre os lobos. Acima, um frontão em triângulo isósceles nu é arrematado por uma cruz central e um perfil em escada, acima do triângulo. O cornijamento em toda a fachada é estreito e sem adornos.

O corpo da igreja é ladeado por duas torres sineiras iguais, com aberturas estreitas junto à base e arcos abertos no nível superior para os sinos. São largas e muito espessas, e possuem um oco exíguo que abriga apenas uma estreita escada até o topo. O coruchéu tem ornamentação simples com volutas discretas e bandeirolas.

A fachada traseira é bem menos ampla, acompanhado as menores dimensões da capela-mor, e possui apenas duas janelas retangulares estreitas no nível térreo e um óculo pequeno redondo acima, centralizado, e telhado visível em duas águas. Em ambos os lados existem anexos térreos para a sacristia e a secretaria, com entradas independentes, igualmente em estilo barroco colonial.
O interior tem janelas altas, teto sem adornos em ripas pintadas de azul claro, em arco abatido, e é de nave única, dividindo-se apenas para delimitar a capela-mor. À esquerda da entrada vemos um batistério simples, contendo apenas uma pia batismal de pedra, e é fechado por uma porta de folha dupla vazada, em madeira torneada. Sobre a entrada um grande coro de madeira, de linhas geométricas simples e sustentado por duas colunas igualmente discretas.

Existem 6 altares laterais, dedicados a Santa Bárbara, São Miguel Arcanjo, Santa Ana, o Divino Espírito Santo, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores, todos com vários níveis e nichos para outras imagens secundárias. Apresentam uma talha rococó de primeira linha, rica mas sem sobrecarregamento, de inspiração extremanente vigorosa e elegante, acabamento esmerado e com arremates de assemelham a labaredas, de esplêndido efeito, sendo todos de um mesmo desenho geral mas todos diferentes nos detalhes, o que confere uma notável unidade e ao mesmo tempo graciosa variedade à decoração interna.

3 Comentários

  1. 20, Novembro 2007 às 7:17 pm

    [...] irmã explica que o Colégio foi fundado em 1938, muitos anos depois da Revolução Farroupilha e da construção da Igreja Matriz. Mas não soube esclarecer qual prédio/casa havia ali no terreno do colégio [...]

  2. 20, Novembro 2007 às 7:23 pm

    [...] em Viamão após estudos no Seminário Maior de Viamão. “Me sinto intimamente ligado a Igreja Nossa Senhora da Conceição, pois estudo e gosto da história do Brasil, e Viamão é ponto de esclarecimento de fatos da [...]

  3. Vagner Eifler disse,

    2, Março 2008 às 11:22 pm

    Um pequeno detalhe…

    Ao contrário do que o texto dá a entender, a atual matriz de Viamão é a segunda igreja construída no local.

    A primeira foi a construída na época do Francisco Carvalho da Cunha e era de madeira, inclusive existindo documento no Rio de Janeiro contendo a autorização do Bispado para a demolição do templo (com a instrução de aproveitar o possível e enterrar o resto).

    A atual igreja de Viamão é da década de 70 do século XVIII.


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